VIDA RELIGIOSA

Nesta secção encontramos artigos referentes à Vida Religiosa.

Vida Religiosa provisória: um desafio a ser enfrentado

João Mendonça, sdb[1]

 Há quem diga que a Vida Religiosa tradicional desenvol­vida até meados do século XX já perdeu sua razão de ser. As assim chamadas novas formas de Vida Consagrada chegaram para assumir o lugar de uma tradição decadente. Portanto uma nova forma de Vida Religiosa desponta no horizon­te da provisoriedade. Não mais vida fraterna para sempre, muito menos conselhos evangélicos perpétuos, nem missão duradoura, simplesmente uma escolha de vida provisória por um tempo determinado pela pessoa, entre cinco e dez anos. E do conhecimento nosso que na tradição budista é possibilitada a todos uma experiência de vida monástica, o que não significa que vão se tornar efetivamente monges pelo resto da vida. Contudo seria isto um contexto de vida provisória ou religiosamente pedagógica?

Acredito que seja mais pedagógica, em vista de um mer­gulho no mistério do budismo, do que uma eventual vivên­cia religiosa sem influências sobre a vida posterior. No caso da Vida Religiosa dita provisória se postula a possibilidade de uma experiência por um período, quase um volunta­riado, e no fim do prazo retorna-se ao ambiente familiar. Aí eu pergunto: é possível ser religioso ou padre por uma década e depois viver como se tudo isso não fizesse parte do seu ser?

O chamado de Deus não é algo exclusivo para estar com ele? A Vida Religiosa não se constitui a partir desse cha­mado? O Senhor que chama pode simplesmente mudar de ideia e deixar de chamar? O religioso pode até pensar que o fato de não sentir mais o encanto da Vida Religiosa perpétua é porque perdeu a vocação, mas pode-se perder algo que nunca encantou desde as entranhas? Seria o caso, então, de refazer a compreensão teológica do chamado?

 Questões de sentido

Diante desses questionamentos, exponho duas teorias mui­to interessantes que despertam nosso interesse sobre esta pro­visoriedade da Vida Religiosa.[2] Segundo Favale, as teses di­zem o seguinte:

• A Vida Consagrada, na sua primeira manifestação, o estilo monástico, nasceu perfeita, enquanto as outras formas posteriores não seriam Vida Consagrada pro­priamente dita, a não ser que coincidam com o estilo monástico. Com isto se quer dizer que a Vida Consagra­da, com seus variados estilos, seria apenas a história de uma progressiva decadência.

• Há uma reação a essa tese que reza o seguinte: a Vida Consagrada teria nascido no monaquismo como um embrião, uma coisa imperfeita, que, com o passar do tempo, foi sendo aperfeiçoada. Consequentemente, cada nova forma de Vida Consagrada é um passo a mais no desenvolvimento e na completa formação da mesma, tendo nos institutos seculares o seu vértice.

Teorias postas, problema para refletir. Quem tem razão? Hoje, a tendência de muitos, mesmo de eclesiásticos renomados, é achar que há um esgotamento do modelo tradicio­nal de Vida Religiosa, portanto são partidários da primeira tese. Outros mergulham de cheio na compreensão desse desenvolvimento histórico. No entanto, nenhuma posição me parece corresponder ao dinamismo do Espírito Santo na história, pois os carismas são frutos do Espírito e não meros caprichos dos fundadores. Acredito que o limite não é o tempo, mas a capacidade de inculturação do carisma no tempo e no espaço, e isso é uma tarefa carismática dos membros do Instituto.

Re-partir do carisma fundacional, portanto, é um desafio que se impõe hoje a todas as formas de Vida Religiosa, o que já pedia o Concílio Vaticano II: “A atualização da Vida Religiosa compreende ao mesmo tempo continuo retorno às fontes de toda vida cristã e a inspiração primitiva e original dos institutos, e adaptação dos mesmos às novas condições dos tempos” (Perfectae caritatis, cf. n. 1). O termo contínuo quer dizer permanente, dinâmico, ousado, e não uma mera e nostálgica recordação do carisma do fundador.

Também existe o questionamento da diminuição das vo­cações, por isso que, para atrair os jovens, é preciso assumir algumas atitudes: ou voltar às antigas formas de vida católica tridentina que parecem agradar os jovens, como, por exem­plo, o uso do hábito, a disciplina, o afastamento do mundo, a linguagem padronizada etc., ou adequar-se às novas ondas juvenis sem tanta disciplina, pouco estudo sistemático, uma espécie de vida mista que transita entre as relações afetivas e a castidade temporária etc.

A questão de base de toda esta problemática reside na re-definição do ser humano que estamos vendo no atual contexto, ou seja, passa-se do valor comunitário para o va­lor da “história pessoal do indivíduo”.[3] Segundo Merkle, o que o indivíduo busca é ser o centro de toda a realidade, ele reduz a religião e a Vida Religiosa a sentimentos ín­timos; é um pertencer de forma “líquida” e “fazer o que se gosta”.[4] Ora, quem apenas gosta de algo ou deixa de gostar não aprendeu a amar. Vive-se do puro subjetivismo infantil, como uma criança que bate o pezinho ora para protestar contra alguém, ora para exigir um afeto e reali­zar um capricho.

Então, que é que isso significa para a Vida Religiosa? É muito simples e preocupante: o indivíduo com uma depen­dência absoluta busca um grupo ou um estilo de vida, não para ter uma vida partilhada no comum da fraternidade, dos conselhos evangélicos e da missão, mas para ter garantias de sua privacidade. Por isso não cria vínculos de pertença, não partilha da história do outro e não age em conjunto. Quan­do sua carência básica de consumo não é satisfeita, ele migra para outro grupo, abandonando sem dificuldades o que vi­nha desfrutando. Acontece também que tais comunidades formadas na base do privativo interesse,

quando se reúnem para programar, programam sempre em coi­sas mínimas: o mínimo de oração, o mínimo de sacrifício, o mínimo de vida comunitária, o mínimo de entrega comunitá­ria aos outros. Por outro lado, há o máximo de individualismo, o máximo de liberdade e o máximo de comodidade. Resulta, assim, num projeto de vida que não encanta a ninguém, um projeto para ser vivido sem muitos problemas.[5]

 Este sim é o verdadeiro eclipse da Vida Religiosa, seja ela na sua vertente tradicional, seja provisória.

 Questões de significado

Ora, “a Vida Religiosa contesta a atitude da sociedade se­gundo a qual os investimentos humanos são sempre provisó­rios”.[6] O fato de algumas sociedades de vida apostólica terem como doutrina que os conselhos evangélicos são renovados a cada ano — por exemplo, as Irmãs da Caridade de São Vi­cente de Paulo —, não quer dizer que elas vivam do provi­sório, muito menos que a Vida Religiosa seja funcional. Mas trata-se de um dinamismo inerente ao próprio carisma fun­dacional que caracteriza não a busca do indivíduo, mas sua plena realização dentro de um projeto comum, pois a Vida Religiosa não é um fazer coisas segundo interesse pessoal, mas um ser pessoa interdependente, que partilha um projeto comum e age em comunhão com os outros.

O provisório, por outro lado, é apenas o voltar-se para si, mesmo que trabalhando com os outros, porém sempre fechado no próprio bem-estar, sem vínculos.

Quando um(a) religioso(a) professa, revela ao mundo e à Igreja que Jesus Cristo é o sentido pleno de toda a sua vida, seu modo de SER pessoa em relação. “Isso significa essencialmente optar por transcender a si mesmo, por abandonar a atitude egoísta de abrir-se para Deus, para a realidade e para os outros no amor.”[7] A auto-transcendência no amor é a base de qualquer Vida Religiosa. Agora, o drama de muitos religiosos na atualidade é cair na tentação do romantismo, ou seja, fechar-se em si mesmo, em seus problemas, em suas necessidades, em suas buscas de preenchimento. O desafio está em aceitar o realismo da vida, sobretudo o deixar-se questionar a partir dos destinatários da missão, a partir dos pobres. Quando isso é assumido coletivamente, a comuni­dade religiosa, e cada pessoa nela, se torna capaz de assumir compromissos coletivos. Trata-se do saber “viver juntos por causa de, não a fim de”.[8]

 Questões de identidade

Contudo a crise do ser, assim chamado pós-moderno, é de viver no provisório. As relações são provisórias, os casamen­tos são cada vez mais provisórios, o trabalho é provisório, as alianças e pactos políticos são também provisórios e opor­tunistas. É um clima de incerteza quanto ao dia de ama­nhã que espanta a todos. Enquanto isso, a Vida Religiosa, de modo geral, sustenta a perpetuidade dos compromissos, mesmo sofrendo as amargas perdas de pessoal. A questão é que as novas gerações não respiram o clima cultural religio­so católico herdado da família. Elas chegam de diversas ex­periências, todas, ou a maioria delas, transitórias, sobretudo religiosas. E possível até dizer que as várias religiosidades e espiritualidades transitam na vida das pessoas.[9]

O sincretismo perpassa a longa linha da vida e parece que a fé professada na sua dimensão de anúncio e conversão não chega a tocar as pessoas em profundidade. O processo for­mativo das novas gerações de religiosos (as) muito menos. A argumentação dos valores e das atitudes religiosas forma uma casca que, se perfurada, revela a fragilidade do ser que tem dificuldade de internalizar a cultura religiosa carismá­tica do Instituto e, portanto, se comporta segundo o padrão esperado pelo seu grupo de interesses, mas não está disposto a agir no conjunto, e sim no privado.

E uma Vida Religiosa romântica e fragilizada, na qual o aburguesamento, desde os inícios da formação, mina a caridade, em que o consumismo enche os olhos e esvazia o coração, o individualismo ofusca o valor da comunidade e cria-se uma dependência do Instituto, pois tudo se espe­ra receber como um ser totalmente dependente do afeto da mãe. Nesse caso, tanto o Instituto como a comunidade eclesial se transformam na mãe que faltou ao religioso. Isso significa que a pessoa não foi educada para administrar fra­cassos, frustrações. “O problema é o amor, a caridade.”[10]

Nesse sentido a Vida Religiosa provisória, expressa muitas vezes nos novos movimentos religiosos, “são os sinais de uma rejeição muito mais radical das igrejas institucionaliza­das do que o ateísmo da modernidade, porque criam substi­tutos”.[11] Essa nova realidade pode ser até uma resposta à per­gunta pelo sentido da vida, mas nada garante. Isso acontece porque é sempre mais “líquido”[12] o sentido de pertença, e a diversidade de referências contribui para a busca da identi­dade sempre mais desafiante, porque a ofuscada experiência do transcendente elimina o confronto salutar da dúvida e do mistério.

A dúvida não é um mau em si, é a brecha pela qual pode entrar a certeza de um projeto de vida centrado no bem-estar do outro. Por sua vez, o mistério é a oportunidade de cavar fundo na existência para encontrar a presença do totalmente Outro que se revela seja no privado, seja no coletivo.

É também possível que a Vida Religiosa perpétua, institu­cionalizada aos longos dos séculos, que tem a pretensão de ser sinal de testemunho e profetismo, seja porque favorece uma resposta pela busca de sentido, seja porque cria segu­rança para a pessoa, pode “tornar-se algo relativo, exatamen­te porque o indivíduo a privatiza. E por isso que muitos jovens buscam a Deus, mas rejeitam o Deus tradicional que encontram na Vida Religiosa institucionalizada.[13] Por isso as grandes decepções no atual cenário dos institutos religiosos tradicionais, com saídas inúmeras, sobretudo nos primeiros anos de votos temporários e da ordenação presbiteral.

Contudo há também outro elemento: o idealismo. Pessoas que criam castelos de areia e imaginam a Vida Religiosa como uma vida sem conflitos, sem incoerências, sem patologias. Quando encontram essas coisas, que infelizmen­te existem, devido à nossa humanidade, se desencantam, e não conseguem responder com uma relativa maturidade. Por isso é preciso educar a nova geração ao realismo, sem perder, no entanto, o encanto do sonho.

 Tarefas pertinentes à Vida Religiosa

Que seria importante resgatar neste cenário complexo?[14]

·        Re-elaborar a teologia da Vida Religiosa a partir dos pa­radigmas existenciais que trazem as novas gerações, com uma salutar síntese das coisas antigas: não é rejeitando a experiência do passado que vamos dialogar com o novo, mas instaurando o salutar confronto na busca da essen­cialidade, o serviço ao Reino.

·        Recuperar a antropologia da Vida Religiosa: o importan­te é considerar o ser humano envolvido no processo de busca em vista de um projeto de radicalidade. A pessoa do religioso e suas raízes culturais precisam ser integradas no processo formativo continuo, jamais estanque.

·        Repensar o simbolismo teológico da Vida Religio­sa: Martin Buber, para citar um exemplo, profetiza o “eclipse de Deus”,[15] aquela imagem clássica de Deus de­saparece no cenário religioso fragmentado. Ora, a Vida Religiosa, como teologia, não pode ficar à margem des­sa mudança, mesmo na sua missão específica. É preciso sair do mundo da clausura para instaurar um diálogo com a sociedade, com a cultura e com a própria Igreja.

·         Nesse sentido a identidade da Vida Religiosa no atual contexto pode ser re-pensada nos seguintes paradigmas à luz do Documento de Aparecida:[16]

 

CHAMADA A SER

CHAMADA A FAZER

 

— Testemunha significativa.

— Participação ativa na ação pastoral

 

— Fiel ao Evangelho no meio das vicissitudes históricas

— Presença em situação de pobreza, de risco e de fronteira (DA, n. 99c).

 

— Dom do Pai, seguimento de Jesus Cristo e serviço a Deus na humanidade.

— Passagem de uma pastoral de conservação para uma pastoral missionária e projetual.

 

— Vida discipular místico-comunitária.

— Formação de uma nova geração de religiosos (as) discípulos (as) e missionários (as).

 

— Vida   missionária  apaixonada por Jesus, verdade do Pai, capaz de mostrar a luz de Cristo às sombras.

— Conformação de uma nova sociedade de justiça e dignidade.

 

— Transformação de nossas obras em lugares de anúncio do Evangelho, de comunhão, principalmente para os mais pobres.

— Vida a serviço do mundo a partir do carisma fundacional.

 

— Especialista em comunhão tanto no interior da Igreja como na sociedade.

— Descoberta dos novos rostos da pobreza atual, das novas periferias, dos novos desertos e das praças onde estão os sem-trabalho.

— Integrada e integradora a partir da espiritualidade do carisma e de um processo contínuo de conversão pessoal e comunitária.

 

— Promoção da conversão pastoral, do diálogo ecumênico e da pastoral urbana.

— Avançar com ousadia, profetismo e humildade, para águas mais profundas: AVANCEM!

 

 

Diante de tantos fatos aqui narrados, não bastam as boas intenções. A Vida Religiosa não é filha de um monaquismo perfeito, por mais valiosa que tenha sido ao longo dos sécu­los até nossos dias a vida monástica em todas as suas formas. Também o vasto movimento da Vida Religiosa não se de­senvolveu desde o monaquismo como um embrião. Acredi­to, sim, que a Vida Religiosa manteve sempre sua abertura ao Espírito Santo na sensibilidade de homens e mulheres ousados que souberam ler os sinais dos tempos no contexto em que viviam e deram respostas a questões locais com ho­rizontes universais.

Em consequência disso, o postulado de uma Vida Reli­giosa provisória, que nos assusta inicialmente, pode ser mais uma onda neste mar bravio que sacode o barco, mas não o afunda, porque o Senhor sempre está conosco e tem a força para fazer a tempestade acalmar-se e dissipar o medo. Por isso, creio recomendáveis três atitudes de fé:

1)        Promover uma atitude contemplativa de todos, agrade­cendo a Deus pelo dom da vocação e da missão.

2)        Cultivar um respeito recíproco, que ajuda a aceitar os mais fracos, respeitando a criatividade e a responsabili­dade.

3)        Consagrar ao Senhor todos os esforços da missão.

 Questões para ajudar a leitura individual ou o debate em comunidade

1. Conhecemos, realmente, a história da Vida Religiosa Consagrada?

2. Assumimos a Vida Religiosa Consagrada como pro­cesso em contínua mudança ou como algo imutável?

3. Como nosso Instituto enfrenta a realidade da Vida Religiosa provisória?

 Fonte: CONVERGÊNCIA, Dezembro de 2008.


[1] Padre João Mendonça é mes­tre em Educação, com especializa­ção em Pedagogia Vocaciona] pela Pontifícia Univer­sidade Salesiana, de Roma. Endereço do autor: E-mail: mendonca@isma. org.br

[2] FAVALE, Agosti­no. Vita consacrata e società di vita apostolica: profilo storico. Roma: LAS, 1992. pp. 289-291.

[3] MERKLE, A. Judith. O compromis­so da escolha: a vida religiosa nos dias atuais. São Paulo: Loyola, 2007. p. 21.

[4] BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços huma­nos. Rio de Janei­ro: Zahar, 2004. Leia-se também: GRÜN, Anselm. O ser fragilizado: da cisão à integração. 4. ed. Aparecida: Idéias & Letras, 2004.

[5] GIL SOLOR­ZANO, Juan An­tonio. Realismo y utopia de la vida religiosa. Religion y Cultura, LIII, p. 115, 2007.

[6] MERKLE, A. Judith. O compromisso da escolha: a vida religiosa nos dias atuais, cit., p. 32.

[7] Id., ibid. p. 46.764

[8] BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos, cit., p. 46.

[9] TAVARES, S. Sinivaldo. Como experimentar Deus, hoje? Grande Sinal, pp. 143-157, mar/ abr 2003.

[10] COMBLIN, José. Os interrogantes da vida religiosa no século XXI. Convergên­cia, n. 370, p. 95, mar/2004.

[11] Id., ibid. p. 79.

[12] O termo líqui­do é próprio dos escritos do soció­logo Bauman e se caracteriza pelo aspecto efêmero das relações humanas e das próprias opções de vida. Trata-se de um ser humano sem vínculos. Ou­tras obras do autor tratam da liquidez da vida humana em outras esferas, a saber: Medo líquido, Tempos líquidos, Vida líquida, Modernidade líquida etc. Uma rica temática que procura descrever o momento de crise da modernidade.

[13] COMBLIN, José. Os inter-rogarites da vida religiosa no século XXI, cit., p. 80.766

[14] O cenário da provisoriedade e da perpetuidade na Vida Religio­sa encontra neste artigo uma tarefa importante para sua projetualidade. Cf. VIGIL, Maria José. Os desafios atuais mais fundos à vida religiosa. REB, fase. 255, pp. 645-648, jul/2004.

[15] PAGOLA, A. José. Testigos dei mistério de Dios en la noche. Sal Terrae 2000, pp. 27-42.

[16] Indico também um valioso artigo sobre esta proje­tualidade da Vida Religiosa à luz de Aparecida: Cf. BOMBONATTO, Vera Ivanise. A vida consagrada e as opções de Apare­cida. O que o Do­cumento de Aparecida diz e espera da vida consagrada. Con­vergência, número especial, n. 409, pp. 162-171, mar/2008.

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Uma espiritualidade para o nosso tempo. Experiência que brota da Palavra de Deus e da contemplação da realidade

 Mercedes Lopes, mjc[1]

 Introdução

De maneira inédita e até mesmo contrária a certas previsões, o final do século XX e a primeira década do século XXI caracterizam-se pelo interesse generalizado em relação ao espiritual, a tudo o que transcende a realidade desafiadora e complexa deste mundo globalizado. Rápidas e profundas transformações modificam a compreensão do mundo e a capacidade humana de situar-se nele. Nesse cenário surge uma variedade enorme de movimentos de renovação espiritual, ligados a diferentes religiões, e aparecem também buscas independentes de encontrar orientação, sentido e força para viver tal momento de transição e desafios históricos. Por isso tanto interesse, hoje, pelo tema espiritualidade.

Sendo muitas e variadas as tendências dessa busca, cada grupo tem uma idéia diferente quando se refere à palavra espiritualidade. Muitos a entendem simplesmente como algo relativo ao sobrenatural ou mesmo como um bom fluido que resgata as energias perdidas e provoca a cura de doenças. Para algumas pessoas, a espiritualidade é uma ajuda para agüentar os sofrimentos da vida e a buscam pelos mais diversos caminhos, como o do pentecostalismo, do esoterismo, de práticas próprias das religiões orientais, como, por exemplo, a meditação transcendental etc. Na realidade, todos procuram espaços que garantam uma boa qualidade de vida nesta tumultuada e complexa realidade do mundo de hoje.

Com tanta demanda, a espiritualidade torna-se mais um artigo de consumo que se encontra na TV, na internet, nos shoppings e nos grandes acontecimentos mundiais, comprometidos com o mercado global. Nesse contexto estão em moda os shows celebrativos, seja em rituais de grupos religiosos, seja na realização de grandes eventos esportivos. Mas esses belos shows litúrgicos, tão bem preparados, não compreendem as dimensões mais profundas do ser humano na sua busca de encontro pessoal com Deus, nem expressam o grande mistério de sofrimento e de felicidade que as pessoas experimentam em seu dia-a-dia.

Nas igrejas, há uma liturgia do espetáculo, que parece fugir da realidade. Uma liturgia mais preocupada com a aparência, com a estética, com o efeito que os sons, o colorido e os gestos causam nos "espectadores". A liturgia show não celebra a vida cotidiana, em que as pessoas de fé experimentam a presença de Deus chamando-as à vida e pedindo que se coloquem a serviço do seu projeto de vida em plenitude para todas as pessoas (Jo 10,10). Ao contrário, ela expressa uma religiosidade que busca, pede, implora e celebra acontecimentos extraordinários, porque não pode suportar o mistério de um Deus que se esconde e se revela no ordinário da vida.

Também a Vida Religiosa Consagrada torna-se, às vezes, consumista dessa espiritualidade show e nela gasta o tempo que poderia ser usado para partilhar as experiências de Deus, vivenciadas no cotidiano das comunidades religiosas ou para colocar-se em projetos criativos e articulados a fim de cuidar e defender a vida dos pobres e do meio ambiente. Dessa maneira, a VRC vai-se distanciando da fonte de onde brota a água viva, do seu sentido e da sua raiz, que é o seguimento de Jesus Cristo. E a espiritualidade do seguimento que sustenta a VRC na busca de ser fiel à sua vocação mítico-profética, colocando-se radicalmente a serviço da vida, a exemplo de Jesus de Nazaré.

Tal entrega audaciosa somente será possível se for sustentada por uma íntima relação com o Jesus dos evangelhos, isto é, pela mística do discipulado. Na intimidade diária com Jesus, o Cristo, a VRC cultiva uma espiritualidade encarnada e profética, centrada na Palavra de Deus e na mística do discipulado, aberta à diversidade cultural, religiosa e de gênero.[2] E disso que vou tentar falar neste artigo.

 Espiritualidade que brota da contemplação da realidade

Toda contemplação começa na dureza do real, da vida cotidiana, onde está permanentemente conosco o Cristo vivo: "Eis que estarei com vocês todos os dias até a consumação dos séculos" (cf. Mt 28,20). A convicção desta presença fiel de Cristo na dureza do real impede a VRC de cair na tentação de fugir das situações desafiadoras, em que somente se escuta o silêncio de Deus. Para cultivar uma espiritualidade encarnada e profética, é preciso aceitar o escândalo da cruz como manifestação do amor sem medida de Deus! (ICor 2,1-5).

Mas a imagem de um crucificado sangrando, impotente diante dos que o torturam, humilhado e abandonado, é um desafio grande demais para o imaginário simbólico da cultura do mercado global. Quem consegue contemplar a glória de Deus na carne de um crucificado? (Jo 12,28). Que glória pode ser contemplada em um corpo todo ferido, repugnante ao nosso olhar? Há tantos corpos semelhantes, importados das periferias do mundo pelos meios de comunicação! São corpos que passam rapidamente pelas telas da TV, apenas por toleráveis segundos, para seguir sem alívio em direção à morte![3]

No entanto, uma espiritualidade encarnada é expressão da fé, da certeza de que dos corpos crucificados emana um brilho, uma luz muito mais instigante e duradoura do que a das imagens maquiadas que aparecem na TV e nas revistas, sorridentes por terem conquistado o êxito que a nossa cultura tanto valoriza.

Para ter essa fé, essa certeza, é preciso fazer experiência de proximidade com esses corpos feridos. Vendo-os de longe, pelas imagens da TV, nas telas dos computadores ou pelas vidraças dos carros, sentimos apenas medo ou repugnância. Não chegamos a fazer a experiência que muda completamente o nosso olhar, como aconteceu com a comunidade dos discípulos de Isaías: "Assim como se pasmaram diante dele, tão desfigurado estava o seu aspecto humano, assim estremecerão muitas nações. Reis fecharão a boca, pois verão aquilo que não lhes foi contado e compreenderão aquilo que não escutaram" (Is 52,14-15).

A dor dos pobres e inocentes, a repressão contra as pessoas que reclamam justiça e direitos iguais para todos podem ser a denúncia mais forte, a luz que de repente ajuda a ver e a analisar uma realidade maquiada pelo poder do capital que controla a mídia. Porque, quando entramos em contato direto com a realidade, inseridos no meio de pessoas bem concretas, cujos corpos podemos tocar, cuja dor penetra nossas entranhas, o véu que cobre e esconde a realidade cai! Ver de perto a dor dos corpos indefesos e escutar seus clamores nos desperta da apatia e nos dá um sobressalto!

Tomamos um susto ao lembrar que seguimos Jesus de Nazaré, que abriu mão de tudo o que era seu e tomou a natureza de servo, tornando-se assim igual aos seres humanos. E, vivendo a vida comum de um ser humano, ele foi humilde e obedeceu a Deus até a morte — morte de cruz (cf. Fl 2,7-8).3 Tendo-se entregado radicalmente, o Pai o levanta da morte, o ressuscita, para que esteja vivo entre aqueles e aquelas que o seguem, pelos séculos dos séculos (cf. Mt 28,20). A ressurreição é o carimbo e a assinatura de Deus no projeto de Jesus.

 Espiritualidade encarnada e profética

Uma espiritualidade encarnada é conseqüência desse encontro com o real, com os corpos crucificados pelo sistema excludente do mercado global. Essa aproximação comprometida com a vida dos pobres possibilita uma compreensão mais profunda do mistério da encarnação, superando a velha e ideológica visão de mistério como algo que não podemos penetrar. Essa compreensão do mistério levou-nos a admirar e a contemplar a encarnação de Jesus sem perceber todo o seu significado para a vida humana. Na encarnação de Jesus, Deus assume a humanidade, a corporeidade, a condição histórica de cada pessoa neste mundo.

No mistério da encarnação, Deus se identifica com a humanidade que sofre e também com a humanidade que se alegra, experimentando, em Jesus de Nazaré, o cansaço, a fome, a sede, a dor da perda de um amigo, a angústia diante da morte. No mistério da ressurreição de Jesus, Deus manifesta que todo corpo é templo do Espírito (cf. 1Cor 3,16; 6,19; Ef 2,22), proclamando mais uma vez sua máxima dignidade. E o espírito de Jesus Cristo ressuscitado que resgata e recria os corpos feridos e os confirma para sempre como sua imagem e semelhança (cf. Gn 1,26-27).

Assumir que Jesus veio em carne é profecia atual, porque não nos permite ver indiferentemente os corpos que são transformados no lixo humano do sistema de mercado. Desde o começo do cristianismo houve a tentação de negar que Jesus Cristo veio em carne. A comunidade joanina enfrentou-se com pessoas que negavam a encarnação de Jesus, chamando-as de "anticristos" (cf. 2Jo,7). Para a comunidade joanina, o critério para a verificação da fé cristã está no assumir que "o filho de Deus veio em carne" (1Jo 4,2). Nessa verificação a comunidade joanina relaciona cristologia e ética (1Jo 4,20). Uma ética fundamentada no amor e no reconhecimento da presença de Deus em todas as pessoas.

É o Espírito de Deus que possibilita a verdadeira confissão de fé em Jesus, que veio em carne (cf. 1Jo 4,2-3), que tomou corpo e que nos possibilitou ser verdadeiramente imagens de Deus (cf. Gn 1,26-27). Negar que Jesus veio em carne é negar que Deus é capaz de fazer além, infinitamente além de tudo o que nós podemos pedir ou conceber (cf. Ef 3,20). É negar que para Deus nada é impossível (cf. Lc 1,34). Afirmar a encarnação de Deus é afirmar que outro mundo é possível, que é possível outra VRC mais ágil no anúncio do Reino, mais liberta e libertadora.

Uma espiritualidade encarnada somente é possível quando se vive no âmago da história, ainda que esta seja contraditória e desafiadora, como no tempo de Jesus. E dentro dessas contradições que se vive o amor autêntico, solidário, generoso: "A pessoa autenticamente espiritual não é aquela que tem experiências espirituais extraordinárias, mas sim aquela que vive profundamente o amor ao próximo e o respeito ao próximo. Ser cristão é viver o amor pelo outro, no diálogo e no respeito, aberto ao futuro (= utopia)".[4]

Sim, existe atualmente um grande interesse pela espiritualidade e por tudo o que contribui para encontrar sentido e orientação para viver neste mundo marcado pela complexidade. São muitas e variadas as tendências, interpretações e vivências das experiências espirituais; porém, a verificação dessas experiências se dá na prática da pessoa que assume sua corporeidade como expressão e revelação do mistério que a habita. Consciente de ser presença de Deus na história, vive a solidariedade carinhosa e cuidadora dos corpos empobrecidos, excluídos, feridos e maltratados, como o fez Jesus de Nazaré, até chegar a dizer como o apóstolo Paulo: "Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim" (Gl-2,20).

 Espiritualidade centrada na Palavra de Deus

Hoje, a Palavra de Deus interpela a VRC para que avance em direção ao desconhecido, onde nos esperam multidões de pessoas em situação de risco. Avance em direção às novas formas de solidariedade, de testemunho, de fé comprometida, alegre e audaciosa! "Diga a esta geração, avance!"(Ex 14,15).[5] Diante dessa interpelação, muitas vezes a VRC sente-se sem criatividade ou sem forças para dar passos novos em direção a um futuro sem rumo, sem caminhos traçados, sem garantias de sucesso. A única garantia é a da Palavra que a convoca, jogando luz sobre a exigente situação do momento atual.

Se procurarmos conhecer a história das congregações religiosas, chegaremos à conclusão de que a maioria delas nasceu de uma profunda experiência de Deus, mediatizada pela Palavra e pelos clamores dos pobres, em momentos críticos da história. A inspiração primeira que levou homens e mulheres a reunir companheiros e companheiras para concretizar um carisma, um dom de Deus para a Igreja ao serviço do Reino, tem sua fonte na Palavra de Deus e na compaixão pelo sofrimento dos pobres. Essas experiências bonitas, variadas, diferentes em cada época e relacionadas às experiências de Deus e às histórias pessoais, são tão fortes que mudaram os rumos da vida de muitas pessoas, gerando novos e confiáveis sinais da presença de Deus no mundo.

Desde a segunda metade do século XX houve um resgate da lectio divina pelos pobres das comunidades cristãs da América Latina.[6] Quando eles lêem a Bíblia em comunidade, levam para dentro dela seus problemas e suas perguntas, que brotam do chão da vida cotidiana. Essas questões vitais expressam o desejo de encontrar saídas para as situações difíceis, fortalecendo a união e a esperança na caminhada. Ao fazer a leitura bíblica ligada à vida, o olhar da comunidade de fé vai-se transformando e as descobertas levam à partilha e ao compromisso de vida. Nesse processo a comunidade vai tecendo uma espiritualidade centrada na Palavra e geradora de solidariedade articulada, alegre e criativa.

Por meio dessa maneira de os pobres lerem a Bíblia, Deus nos devolve o caminho para chegar à fonte que gerou nossos institutos religiosos, que foi a experiência de Deus através da sua Palavra e do clamor dos pobres. Para retornar a essa fonte colocamo-nos à escuta da Palavra também na vida, na natureza, na história (DV, n. 3). E "a leitura orante da Palavra de Deus escrita na Bíblia que nos ajuda a descobrir a Palavra de Deus na vida".[7] Assim, a leitura da Palavra vai transformando nosso olhar e nosso coração, para que sejamos de fato discípulos e missionários de Jesus Cristo em meio às profundas transformações e aos grandes desafios que envolvem a humanidade hoje.[8]

Interpelada pela Palavra de Deus, que ocupa um lugar central em sua vida, a VRC assume o discipulado no serviço à vida, fortalecendo a inserção nos meios populares e gerando novos espaços de solidariedade e cidadania.[9]

 Espiritualidade que testemunha as novas relações do Reino

A espiritualidade cristã é a expressão de uma experiência de encontro com Deus a partir do mistério mais autêntico e profundo do próprio ser, abrindo-se confiantemente à alteridade,[10] para estabelecer uma relação de acolhida e de paz com o diferente. Embora toda espiritualidade cristã tenha como base um encontro pessoal e íntimo com Jesus de Nazaré, através dos evangelhos e presente nos pobres, na comunidade, nos acontecimentos da vida cotidiana, ela tem também algo característico de cada pessoa e por isso podemos falar de espiritualidade franciscana, teresiana, beneditina etc.

Cada uma dessas pessoas, Francisco, Teresa, Bento etc., teve uma relação única, pessoal e profunda com Jesus. Fizeram uma experiência que marcou suas vidas e lhes deu uma dimensão peculiar dentro da espiritualidade cristã. Encontros gratuitos com Deus presente nas mais variadas e desafiadoras situações cotidianas são geradores de espiritualidade. Nesse sentido a espiritualidade é reveladora de relações profundas que marcaram a pessoa e que lhe deram uma dimensão nova e ampla da vida, de Deus e dos outros.

Se nos abrirmos aos outros e nos deixarmos confrontar pelas diferenças que existem nas comunidades religiosas, na sociedade e na Igreja, descobriremos riquezas que jamais poderíamos imaginar. Experiência que se torna impossível quando se fica na defensiva, nas comparações, nas mágoas e decepções ou na relação competitiva. Quando alguém se abre a uma relação pessoal com Deus, vai descobrindo o mistério profundo do seu próprio ser (Sl 139) e se maravilha com a experiência de ser amado incondicionalmente por Deus. E dessa relação que nasce a espiritualidade cristã. Ela tem uma base comum, que é Jesus Cristo (1Cor 3,11), embora haja sempre características muito pessoais, segundo a história de vida e a identificação com o carisma congregacional.

A entrega cotidiana e apaixonada na defesa e cuidado da vida dos pobres e do meio ambiente é expressão da autenticidade no seguimento de Jesus, vivendo o amor sem medida (Jo 13,1). A abertura ao diferente, superando os preconceitos de gênero e culturais, criando espaços para o diálogo ecumênico e inter-religioso, na acolhida terna de toda pessoa, demonstra a qualidade da nossa entrega. Essa entrega é o termômetro da nossa espiritualidade!

Questões para ajudara leitura individual ou o debate em comunidade

1. Quais são as experiências de Deus que estão nas raízes da nossa espiritualidade?

2. Que aspectos da realidade tocam nossas entranhas, levando-nos a uma identificação com a entrega total e amorosa de Jesus?

3. Como a centralidade da Palavra de Deus transparece em nossa espiritualidade?

4. Como essa espiritualidade encarnada e profética está nos ajudando a superar bloqueios e dificuldades nas relações cotidianas?

5. Que projetos concretos de serviço ao Reino estão sendo inspirados e sustentados pela mística do discipulado que vivenciamos?

Fonte: CRB, CONVERGÊNCIA, Ano XLIII – nº. 417-Dezembro 2008, 751-759.


[1] Irmã Mercedes Lopes é teóloga e biblista, mestra e doutora em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo. Endereço da autora: Rua Fátima Goulart, 72, apto. 103, Centro, CEP 26235-120, Mesquita-RJ. Tel.: (21) 2696-0352. E-mail: lopesmercedes@ hotmail.com.

[2] Quadro Programático da CRB 2007-2010, prioridade 2.

[3] BUELTA, Benjamin Gonzales. "Ver o perecer". Mística de ojos abiertos. Santander: Sal Terrae, 2006. pp. 22-23.

[4] KLOPPENBURG, Alex José. Disponível em: www.cebsuai.orgbr/content/view/302/36/ Acesso em: 12 ago. 2008.

[5] Quadro programático da CRB 2007-2010, Horizonte.

[6] Segundo a equipe que elaborou os roteiros do projeto "Tua Palavra é Vida", a lectio divina reapareceu entre nós, sem rótulo e sem nome, na leitura que os pobres fazem da Bíblia. Foram eles que nos despertaram para a leitura orante da Bíblia. Veja mais em: A Bíblia na formação. "Tua Palavra é Vida". Rio de Janeiro-São Paulo: Publicações CRB-Loyola, 2000. pp. 18-19.

[7] A Bíblia na Formação. "Tua Palavra é Vida", cit., p. 266.

[8] Quadro programático da CRB 2007-2010, Horizonte.

[9] Prioridade n. 1.

[10] Compreendemos a alteridade como uma capacidade de encontro entre o ser  humano e a divindade, gerando um processo de humanização e divinização que atinge a totalidade do ser humano, levando-o a estabelecer uma relação de iguais com todas as pessoas, na acolhida das diferenças